China Revisitada

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Depois de um período relativamente longo de desânimo em relação ao meu trabalho na Universidade do Minho respeitante aos Estudos Chineses, a minha mulher recebeu um convite da Universidade Sun Yat-sen em Zhuhai, no sul, paredes meias com Macau, para ministrar um pequeno seminário. Em boa hora convenceu-me a aderir. Embora sem grande vontade, fui. O seminário seria dividido em duas partes. A mim cabia a apresentação de algumas reflexões que relevavam da interculturalidade. A maioria dos alunos, digo, alunas, eram chinesas que estudavam português. Vi-me, inesperadamente, de novo envolto no afeto de jovens estudantes. Eis um pequeno exemplo plasmado num postalzinho de Natal:

SYSU, Zhuhai, véspera de Natal, 2016

Queridos Pro. Sun e Pro. Luís:

Eu sou a Célia e um [uma] caloura da Universidade de Sun Yant-sen.

Gosto muito de estudar português e das aulas deles [nossas]!

Muito obrigada (seguindo-se o desenho de um coraçãozinho)

Feliz Natal e Bom Ano Novo

Até no [ao] próximo ano e beijinhos!

Célia

No dia 24 a minha mulher improvisou um jantar com bacalhau para chineses e portugueses (nossos alunos do mestrado a estudar um ano naquela universidade). Foi uma festa. No dia seguinte um salto a Macau para visitar o meu velho amigo, Padre Luís Sequeira. Um voo solitário até Tianjing numa cortesia à minha família chinesa. Algo deprimente. Pelos oitenta anos, uma geração perdida, em certo sentido, vergados pela estuporada Revolução Cultural. Como sempre, receberam-me de braços abertos. Uma noite mal dormida num comboio para Changsha a fim de visitar os meus sogros. A minha mulher já lá estava. Poluição despudorada em qualquer local onde estivéssemos (no sul um pouco menos). Um convite para almoçar por parte duma antiga aluna de mestrado. No percurso para o restaurante, pelas dez da manhã, na rádio do automóvel ouviam-se quase silenciosamente coros e música budista. Uma certa paz foi tomando cidadania sobre o meu descontentamento.

Regressei curado.

Luis Cabral